A sala de espera
quando não tem pra onde fugir, a vida acontece bem na nossa frente
São Paulo, 29 de Abril de 2026 — 10h43
Hoje fui fazer exame de sangue.
Exame de rotina. Nada demais.
Fui em jejum e cheia de dor no corpo. Minha cunhada, médica, acha que pode ser influenza… eu, resistente a acreditar que fico doente, penso que deve ser apenas uma TPM mais dramática.
Só queria ficar deitada na minha cama. Fui com o corpo arrastando. Mas não tinha outra alternativa, era o único dia possível. Acho que às vezes a vida adulta é isso: ir mesmo sem querer.
Cheguei no laboratório 7h34 e esperei.
Nos primeiros minutos, não me incomodei com a espera. Tinha levado meu Kindle e estava em 80% de um livro gostoso. Cerca de 30 minutos depois, terminei o livro. Me decepcionei levemente com o final. Sempre fico meio órfã quando um livro acaba, mesmo quando ele não termina tão bem assim.
Sem redes sociais, me vi sem escapatória. Não tinha lugar para me distrair rolando dedo na tela. Restava apenas o mundo ali acontecendo na minha frente.
Mas confesso que eu adoro observar as pessoas, então, foi isso que eu fiz.
Dentre as mais ou menos 10 pessoas que ali esperavam, apenas eu e uma velhinha chiquérrima, que devia estar na casa dos 80 anos, estávamos sem rolar o dedo em uma tela brilhante. Minha vontade era sentar ao seu lado e pedir para ela me contar sua história de vida. Mas controlei meu impulso meio maluco e segui observando o restante dos pacientes.
Uma criança que era praticamente uma fotocópia do pai.
Uma mulher que me parecia uma blogueira famosa (ou talvez só alguém muito bem arrumada numa quarta-feira qualquer).
Dois gringos que fiquei tentando decifrar da onde vinham.
Por um tempo, aquilo me bastou.
Mas o corpo começou a cobrar.
Veio a fome, afinal, o jejum não perdoa.
A dor de cabeça intensificou e a dor no corpo nem se fala.
E ai o mau humor apareceu.
Já era 8h36 e nada de ser atendida.
A espera, que antes era quase contemplativa, virou um incômodo chato!
Mais vinte minutos se passaram…
Eu só queria a minha cama.
E foi justamente quando eu já estava completamente entregue à impaciência que algo aconteceu.
Uma senhora de traços asiáticos saiu da sala de coleta sorrindo. Ela foi até um canto do laboratório e minutos depois voltou com um papel azul. Ficou esperando o enfermeiro que a atendeu sair pela porta para chamar o próximo paciente.
Quando ele apareceu, ela foi até ele e entregou o papel. E ficou ali, paradinha ao lado dele, enquanto ele lia o texto.
Rapidamente entendi que o papel azul era para escrever um feedback, e ela claramente tinha escrito um baita de um elogio.
O enfermeiro se emocionou. E ela ficou feliz da vida!
Ela percebeu que eu estava olhando e veio até mim, ainda sorrindo, para me contar: disse que foi tão bem atendida que sentiu vontade de escrever. E completou, como quem compartilha um segredo: “peça para para ser atendida pelo Adriano ele é ótimo”.
Respondi sorrindo que eu já tinha sido atendida por ele antes. Ele é realmente muito bom!
Logo depois, chamaram meu nome.
Não era o Adriano. Era o Leandro.
E ele também foi ótimo.
Atencioso, sorridente, simpático e com a mão tão leve que nem senti a agulha entrar…
Saí de lá ainda com dor no corpo. Ainda com fome. Ainda querendo minha cama com urgência.
Mas sem o mau humor.
Antes de ir embora, passei no balcão, peguei um papel azul e escrevi sobre o atendimento do Leandro.
De vez em quando, tudo o que a gente precisa é de um papel azul e alguém disposto a fazer o dia do outro um pouco melhor.
🍵 Pega um cházinho e me conta…
você é do tipo que se irrita rápido com a espera ou consegue, às vezes, encontrar alguma coisa bonita no meio dela?
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” — José Saramago em um dos meus livros favoritos: ensaio sobre a cegueira.
→ Filme: Dias Perfeitos — com certeza já devo ter indicado esse filme aqui, mas entendo que não é para qualquer um. É um filme lento, silencioso, quase uma uma meditação em forma de filme… mas é uma reflexão e tanto sobre a beleza nas pequenas repetições da vida.
→ Desafio da semana: faça um elogio inesperado para alguém! Pode ser num papel, numa mensagem de texto (me dei conta que pareço uma senhora falando mensagem de texto mas eu gosto disso rsrs) ou falando pessoalmente mesmo. É um gesto simples… mas, como você viu, muda mais do que a gente imagina.








Boa tarde com friozim em MT. Um feliz dia das mães, para quem ja é mamãe.
Eu sou da turma que tem a paciência de esperar, e ainda tento acalmar, os que estão exaltados ao meu lado.
Eu costumo dizer em silêncio nessas horas de espera a seguinte frase: Tudo passa nessa vida, minha hora vai chegar, rápido ou devagar, eu chego la. Então para que ter pressa né? Rsrsrs
Rsrsrs
Ótimo domingo a todos.
Ah ontem fiz farofa de Banana da terra, e durante o processo me recordando da sua avó preparando para você, ela dizia a Ana gosta assim... 🫠
Eu não tenho dificuldade em esperar, também gosto muito de observar as pessoa em minha volta, suas reações, suas expressões ( como psicóloga, isso já faz parte de mim, é meio que inerente rs)...
Até porque, sempre penso.. quem é que me deixaria esperando de propósito?! Não faz o menor sentido, se está demorando, algo está acontecendo, tento sempre pensar assim.
Mais um texto incrível, Ana. Espero que tenha melhorado. Abraço virtual para minha amiga virtual! S2